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O Avesso da Pele de Jeferson Tenório: cicatrizes do racismo

A literatura brasileira contemporânea tem se mostrado particularmente atenta às feridas que insistem em se reabrir no tecido social. Em meio a romances e poemas que revisitam a experiência negra, O Avesso da Pele ocupa um lugar singular ao transformar a dor em ficção sem banalizá-la. Jeferson Tenório estreou na prosa longa em 2020 com uma narrativa que cruza luto familiar, memória paterna e a persistência do racismo estrutural.

Publicado pela Companhia das Letras, o romance rapidamente conquistou leitores críticos e foi traduzido para diversos idiomas, confirmando que sua investigação sobre cor, classe e afetividade atravessava fronteiras. Esta resenha percorre os principais eixos do livro — da construção do protagonista Pedro à reflexão sobre silenciamento familiar — sem deixar de lado o diálogo com outras linguagens que orbitam o mesmo campo.

A escrita de Jeferson Tenório e o peso da herança literária

Antes de O Avesso da Pele, o escritor já havia vencido o Prêmio Jabuti com O Beco das Almas Perdidas, mostrando que sua percepção sobre as margens de Porto Alegre renderia também narrativas longas. O romance confirma essa expectativa e estabelece o autor como um dos cronistas mais atentos da experiência negra no Brasil.

A obra combina lirismo e contundência em medidas raras. Tenório transita entre o drama íntimo de um filho que perde o pai assassinado e o retrato amplo de uma sociedade que ainda se recusa a olhar para as próprias feridas. É uma literatura que incomoda justamente por recusar a amenidade e apostar na fratura como método.

Pedro e o avesso que precisa ser visto

A narrativa se desenrola a partir de Henrique, professor universitário que retorna à casa da infância após perder os pais e começa a remexer nos arquivos do pai, Pedro. Pedro foi um homem negro que construiu a existência a partir de estratégias de sobrevivência em uma cidade do Sul marcada pelo embranquecimento cultural. O avesso do título ganha camadas conforme o leitor descobre que o filho precisa revisitar não apenas a memória paterna, mas a maneira como foi ensinado a enxergar a negritude.

Ao reconstruir a vida do pai, Henrique entra em contato com cartas, cadernos e fotografias que reordenam a sua história. O narrador se divide entre a primeira pessoa do filho e a terceira pessoa que observa Pedro, criando um efeito de descoberta gradual. Essa escolha permite acompanhar, junto ao protagonista, as nuances de uma masculinidade negra silenciada e os mecanismos de contenção emocional que muitas vezes passam despercebidos.

As cores da pele como campo de batalha

Um dos pontos altos do livro está na maneira como Tenório trabalha a questão da cor. Desde a infância, Pedro é tratado pelo apelido Saturno, alcunha que embrulha em falsa neutralidade uma série de microagressões. Em vez de denunciar o racismo de modo panfletário, o autor transforma essas cenas cotidianas em matéria de investigação existencial. O leitor percebe como o preconceito opera em gestos aparentemente banais que nonetheless produzem danos profundos.

Essa abordagem dialoga com produções culturais que buscam repensar os lugares do negro na narrativa. Para quem se interessa por histórias visuais que também problematizam identidade e representação, vale conferir graphic novels de 2023 que circulam por temas afins. O cruzamento entre literatura e quadrinhos revela novos caminhos para falar de pautas urgentes.

A herança silenciada entre gerações

O romance coloca em xeque a ideia de que as conquistas raciais no Brasil se deram de forma harmoniosa. Ao acompanhar a vida de Pedro, vemos um homem que se profissionalizou e constituiu família, mas viveu sob a vigilância de uma sociedade que o condicionou a se comportar de determinada maneira. Henrique herda tanto o legado de dignidade quanto os mecanismos de contenção impostos pelo pai, que preferia não falar sobre o assunto para preservar a própria sobrevivência.

A construção afetiva é feita em grande parte por meio dos silêncios. Tenório demonstra habilidade ao transformar a ausência de diálogo em elemento narrativo, mostrando que o silêncio familiar sobre o racismo costuma ser tão violento quanto as agressões explícitas. Essa camada psicológica torna a leitura profundamente humana, para além de qualquer debate teórico.

Cidade, corpo e território

Porto Alegre aparece na narrativa quase como um personagem adicional. As ruas, os bairros e os espaços de sociabilidade negra são descritos com minúcia e com a consciência de que se trata de territórios em disputa. O autor não romantiza a periferia nem a transforma em cenário exótico; apresenta-a como um espaço onde vidas se constroem em meio à hostilidade cotidiana.

O corpo negro também ocupa lugar central. Pedro aprende desde cedo a ocupar menos espaço, a falar mais baixo, a calcular gestos. A cena em que é seguido por seguranças em uma loja no centro da cidade condensa décadas de experiência racial brasileira. É um momento em que o leitor sente, na própria pele, o peso de uma suspeita permanente que recai sobre corpos negros em diferentes contextos.

A literatura como denúncia e reparação

Tenório se inscreve em uma linhagem de escritores que utilizam a ficção como instrumento de leitura crítica do país. Conceição Evaristo, Paulo Lins, Itamar Vieira Junior e tantas outras vozes vêm ocupando o espaço literário para devolver à cena personagens historicamente apagados ou reduzidos a estereótipos. O Avesso da Pele dialoga com essa tradição sem se limitar a ela, propondo uma linguagem que mistura thriller, memorialismo e ensaio social.

Em tempos de recrudescimento do discurso de ódio, a obra funciona como lembrete literário de que a luta antirracista passa também pela imaginação. Ler este romance é participar de um exercício de empatia que desnaturaliza aquilo que foi construído para parecer natural. A literatura não substitui a política, mas oferece ferramentas afetivas para enxergar o mundo a partir de outras perspectivas.

Estilo, ritmo e escolhas formais

Do ponto de vista formal, o romance aposta em capítulos curtos e alternância de vozes que mantêm o ritmo acelerado. A linguagem de Tenório equilibra vocabulário erudito com expressões populares, sem soar forçada em nenhum dos polos. Algumas cenas se aproximam de uma narrativa de suspense, especialmente na investigação sobre o assassinato dos pais de Henrique; outras se demoram em descrições sensoriais da cidade e da casa onde Pedro viveu.

Há ainda uma preocupação do autor em explorar os bastidores do mundo acadêmico. Henrique é professor de literatura, e o livro se volta para discussões sobre cânone, autoria e o lugar do escritor negro nos currículos. Essa camada metalinguística acrescenta densidade à obra e convida o leitor a repensar os critérios que historicamente definiram o que merece ser lido, estudado e valorizado.

Quem termina O Avesso da Pele dificilmente sai da leitura da mesma maneira que entrou. O romance deixa uma marca que não se apaga com o simples fechamento do livro, e essa é talvez a sua maior qualidade. Em vez de oferecer respostas fáceis, a obra propõe perguntas que permanecem ecoando nas conversas familiares, nas salas de aula e nas rodas de café por onde os temas raciais circulam com urgência renovada.

Vale acompanhar o trabalho de Jeferson Tenório nos próximos lançamentos e revisitar as obras de autores negros brasileiros que vêm redesenhando o mapa da literatura nacional. Compre o livro, indique a uma pessoa próxima, participe de clubes de leitura e prestigie as livrarias independentes que mantêm esse tipo de obra viva em seus catálogos. A leitura crítica é também uma forma cotidiana de resistência.