Os melhores graphic novels brasileiros de 2023 que passaram despercebidos
O ano de 2023 foi generoso para os quadrinhos nacionais. Editoras pequenas ganharam fôlego, novos autores despontaram em coletivos artísticos e obras que pareciam destinadas ao circuito underground encontraram espaço nas livrarias independentes. Ainda assim, muita coisa boa escapou ao radar dos leitores mais atentos, engolida pelo barulho dos lançamentos internacionais e pelas continuações das grandes franquias.
Selecionei sete caminhos para quem quer explorar os quadrinhos nacionais daquele ano. São histórias de diferentes estilos, gêneros e sensibilidades, unidas pelo desejo de contar algo singular. A lista não esgota o assunto, mas aponta trilhas pouco percorridas por quem costuma frequentar livrarias e sebos.
A explosão dos selos independentes
O cenário editorial brasileiro viveu uma transformação silenciosa nos últimos anos. Editoras como Mino, Comix e Pipe Studio apostaram em tiragens menores, acabamento caprichado e curadoria afinada. O resultado foi uma safra de obras que fogem da lógica industrial e dialogam com o leitor como se conversassem em uma mesa de bar.
Em vez de mirar o público adolescente com super-heróis, esses selos investem em adultos dispostos a ler narrativas densas, lentas, contemplativas. Os lançamentos passaram a circular em feiras, sebos e cafés literários, criando uma rede de distribuição tão orgânica quanto a própria arte. Foi nesse contexto que despontaram algumas das obras mais instigantes do período.
O lirismo das HQs contemplativas
Entre as publicações mais delicadas está uma graphic novel quase autobiográfica de um artista paulista que mistura memória familiar e fragmentos oníricos. O traço fino, em lápis e nanquim, lembra os cadernos de viagem de Will Eisner, mas a narrativa tem sotaque brasileiro: varandas de São Paulo, avós de fala mansa, cachorros vira-latas atravessando páginas inteiras sem pressa.
A obra aposta no silêncio como elemento narrativo. Não há grandes reviravoltas, explosões ou vilões caricatos. O que existe é a contemplação de cenas mínimas — um cafezinho servido no fim de tarde, uma carta lida em voz alta, um enterro em cidade do interior. É uma leitura que pede tempo, mas recompensa cada página com uma imagem que fica gravada por semanas.
Ficção científica e distopias nacionais
A editora Comix, radicada em Porto Alegre, lançou naquele ano uma série de ficção científica que agitou os fóruns especializados. Com cenários urbanos decadentes e tramas políticas que parecem extrapolar o jornal da manhã, as obras exploram um Brasil futuro onde as fronteiras entre tecnologia, biopoder e resistência se dissolvem. O traço expressionista, com hachuras densas, conversa com a tradição europeia dos quadrinhos adultos.
O destaque vai para a graphic novel central da série, que acompanha uma cartógrafa encarregada de mapear zonas de exclusão digital. A protagonista, cansada e insone, atravessa ruínas de data centers enquanto a narrativa vai revelando um passado marcado por revoltas silenciadas. É uma leitura desconfortável, que questiona os discursos ufanistas tão comuns na ficção científica brasileira.
Memórias em quadrinhos como forma de cura
Vários autores nacionais usaram os quadrinhos como ferramenta de processamento pessoal. Uma das obras mais tocantes desse veio autobiográfico retrata o luto de uma filha pela mãe, em capítulos curtos e secos, quase telegráficos. Cada página funciona como um sussurro: a perda da voz, os cheiros que ficam, as roupas doadas.
Outra publicação memorável traz um autor queer reconstruindo sua adolescência no interior do Nordeste durante os anos 1990. Entre festas de São João, descobrimentos sexuais e o medo constante da Aids, a HQ constrói um retrato de resistência cotidiana que conversa com obras internacionais sem copiar modelos. São leituras que emocionam justamente por se recusarem ao melodrama fácil.
O humor negro de Mutarelli e novos autores
Lourenço Mutarelli segue sendo um dos nomes mais ácidos das HQs nacionais, e naquele ano ele voltou com uma graphic novel de humor negro ambientada nos programas de culinária da TV aberta. A sátira é impiedosa com chefs, jurados e com o público que consome entretenimento baseado em humilhação. O traço geometrizante, inconfundível, transforma cada página em uma armadilha visual.
Ao lado dele, novos autores apostaram no humor escrachado para falar de política, dinheiro e fé. Um dos lançamentos mais comentados foi uma paródia dos coaches de vida corporativa, com tiragem inicial esgotada em uma semana. A obra usa o nonsense como arma crítica, lembrando que o riso também pode ser uma forma legítima de questionamento.
Romance gráfico e poesia visual
Um filão que ganhou força foi o romance gráfico com viés poético. Pequenas editoras apostaram em histórias de amor narradas quase sem texto, confiando na força das imagens para construir tensão, desejo e melancolia. Algumas dessas obras chegam a lembrar o cinema mudo, com sequências que privilegiam o olhar ao diálogo.
A editora Jacarandá, de Belo Horizonte, publicou um dos títulos mais bonitos do segmento: uma história de amor entre dois poetas que se cruzam em uma estação de trem abandonada. A paleta de cores muda sutilmente conforme as estações do ano, e a tipografia manuscrita reforça o tom intimista. São leituras que cabem no bolso, mas ficam na memória por meses.
Onde encontrar essas obras
Para além das grandes livrarias, vale explorar sebos, feiras independentes e o circuito de cafés literários. Editoras pequenas costumam vender diretamente em seus sites, garantindo tiragens limitadas e brindes exclusivos. Acompanhar os perfis dos artistas nas redes sociais também rende descobertas preciosas, já que muitos divulgam ali seus próprios zines.
Feiras como a Flip e a Bienal do Livro de São Paulo reservaram espaços generosos para esses pequenos editores nos últimos anos. Nessas ocasiões, é possível conversar diretamente com os autores, pegar dedicatórias e garantir capas variantes. Vale planejar a visita com calma e chegar cedo aos estandes menos badalados.
Se você se interessou por esse mergulho nos quadrinhos nacionais pouco conhecidos, vale conferir outras recomendações e reflexões publicadas no MalditoVivant, onde novos títulos são comentados com regularidade junto a cafés, livros e happenings culturais pelo Brasil afora.