Resenha de Eles Eram Muitos Cavalos e a cidade fragmentada
Publicado em 2001, Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato, é um romance que transforma São Paulo em personagem, cenário e força de desagregação. A obra acompanha um único dia na metrópole, mas sua matéria narrativa parece se espalhar por décadas de desigualdade, deslocamentos, desejos interrompidos e vidas que raramente se encontram.
Em vez de seguir uma história linear, Ruffato constrói um mosaico de vozes, cenas e registros. Há telefonemas, diálogos, pensamentos, anúncios, lembranças, notícias e descrições breves. Cada fragmento ilumina uma existência por alguns instantes, antes de desaparecer no fluxo urbano.
A leitura exige atenção porque o livro recusa a comodidade de um protagonista central. A cidade ocupa esse lugar, ainda que seja uma presença instável: atravessada por avenidas, ônibus, apartamentos, barracos, escritórios, bares e templos religiosos. Para quem acompanha literatura, gastronomia e vida cultural em espaços como o MalditoVivant, o romance oferece uma cartografia literária especialmente fértil.
A força de Eles Eram Muitos Cavalos está justamente na forma. A fragmentação não é um enfeite experimental, mas a maneira encontrada pelo autor para representar uma sociedade partida. O leitor não observa São Paulo de fora; é lançado em seu ruído, em sua velocidade e em suas contradições.
São Paulo como organismo narrativo
A cidade de Ruffato não aparece como simples pano de fundo. Ela determina os ritmos, os encontros e as distâncias entre as pessoas. Um personagem pode estar a poucos quilômetros de outro e, ainda assim, viver em um universo social completamente inacessível. A geografia urbana se converte em hierarquia, medo e desejo.
Os bairros, as vias expressas e os transportes coletivos formam uma espécie de sistema circulatório. Tudo se move, mas quase nada se transforma de maneira profunda. Pessoas trabalham, consomem, rezam, brigam, lembram e esperam enquanto a metrópole continua funcionando com indiferença.
A forma fragmentada do romance
A estrutura do livro quebra a expectativa de continuidade. Não há uma sequência tradicional de capítulos conduzindo a um desfecho esclarecedor. Cada fragmento funciona como uma janela, um corte rápido ou uma escuta involuntária no interior da cidade.
Essa montagem também cria uma ética da leitura. O leitor precisa aceitar lacunas, contradições e mudanças bruscas de voz. A compreensão não nasce de uma explicação final, mas do acúmulo de pequenas percepções. A São Paulo do romance só se revela quando suas partes inconciliáveis são lidas em conjunto.
Vozes que quase nunca se encontram
Ruffato trabalha com uma polifonia radical. A linguagem culta convive com a fala popular, o discurso burocrático se mistura à oralidade, e a intimidade aparece ao lado da propaganda e do noticiário. Essa variedade impede que a narrativa seja reduzida a uma única perspectiva sobre a pobreza ou a vida urbana.
Também chama atenção a ausência de julgamentos fáceis. O autor não transforma seus personagens em símbolos transparentes de uma tese social. Eles são contraditórios, agressivos, frágeis, vaidosos e vulneráveis. Mesmo quando aparecem por poucas linhas, carregam a sensação de uma história muito maior.
Trabalho, consumo e precariedade
O trabalho atravessa o romance como necessidade e condenação. Há quem enfrente longos trajetos, quem tente subir socialmente, quem venda sua força em ocupações instáveis e quem organize a própria identidade em torno do consumo. A promessa de prosperidade está presente, mas raramente se cumpre.
Essa dimensão continua atual porque a precariedade assumiu novas formas. A economia de plataformas, o empreendedorismo compulsório e os trabalhos sem proteção ampliaram a sensação de que cada indivíduo deve administrar sozinho riscos produzidos pelo sistema. Leituras sobre empreendedorismo e trabalho ajudam a aproximar o romance de debates contemporâneos sobre autonomia, exploração e sobrevivência.
O som da oralidade e do ruído
A prosa de Ruffato tem uma musicalidade áspera, feita de interrupções, repetições e mudanças de registro. Em determinados momentos, a frase parece correr como um ônibus lotado; em outros, desacelera para registrar uma lembrança ou um detalhe doméstico. O efeito é sensorial, quase cinematográfico.
O ruído também é uma forma de conteúdo. Buzinas, conversas atravessadas, televisões ligadas e vozes anônimas constituem o ambiente emocional da obra. A cidade não é silenciosa o bastante para permitir autoconhecimento, nem organizada o suficiente para oferecer pertencimento.
A desigualdade sem paisagem turística
São Paulo surge sem a idealização dos cartões-postais e sem a promessa de uma cidade plenamente cosmopolita. Seus restaurantes, prédios e vitrines convivem com a fome, a violência e o abandono. O contraste não é apresentado como exceção, mas como funcionamento cotidiano.
Essa escolha torna o romance particularmente incômodo. Ruffato impede que o leitor consuma a metrópole como cenário exótico ou como símbolo de progresso. A cidade é bela em alguns instantes, brutal em outros, e quase sempre desigual. Sua energia cultural não apaga as estruturas que distribuem mobilidade e conforto de maneira tão irregular.
Como aproveitar melhor a leitura
A experiência pode ser intensificada quando o leitor abandona a expectativa de acompanhar uma trama convencional. Algumas práticas ajudam a perceber os vínculos entre os fragmentos e a reconhecer os padrões que emergem do conjunto:
- Ler alguns fragmentos em voz alta para perceber a variedade de ritmos e registros.
- Marcar as mudanças de narrador, espaço e classe social ao longo do livro.
- Observar como transporte, trabalho e consumo conectam personagens diferentes.
- Relacionar as cenas paulistanas a experiências atuais de mobilidade e precarização.
- Reler trechos breves depois de concluir o romance, sem buscar uma interpretação única.
Também vale prestar atenção aos silêncios. O que não é explicado, o personagem que surge e desaparece, a memória interrompida e o acontecimento apenas sugerido fazem parte do projeto estético. A incompletude não representa uma falha narrativa; é a própria experiência de viver em uma metrópole superpovoada e, ao mesmo tempo, profundamente solitária.
Eles Eram Muitos Cavalos permanece relevante porque não tenta oferecer uma imagem total de São Paulo. Seu gesto é mais inquietante: mostrar que qualquer retrato da cidade será necessariamente parcial, atravessado por ângulos, ruídos e exclusões. A cidade fragmentada não é apenas o assunto do livro; é a forma que o livro assume.
Para quem procura literatura brasileira contemporânea capaz de unir crítica social, experimentação formal e observação do cotidiano, a obra de Luiz Ruffato merece uma leitura cuidadosa. Inclua o romance em sua próxima seleção e deixe que seus fragmentos reorganizem o modo de enxergar a cidade, seus habitantes e as histórias que passam despercebidas.