Bráulio Tavares transforma o cerrado em HQ sensível e vertiginosa
A graphic novel "Avenida Brasília", assinada por Bráulio Tavares e ilustrada por Wellington Srbek, circula com discrição pelo circuito de HQs nacionais desde 2016, mas ganha agora merecido olhar de revisitação. A obra mistura fantasia, memória afetiva e uma geografia específica: o planalto central brasileiro, com campos abertos, árvores retorcidas e céus de azul inventado. É uma HQ que faz do cerrado personagem, não pano de fundo, e isso a coloca em lugar raro entre as publicações contemporâneas do gênero.
Bráulio Tavares, conhecido pelo trabalho consistente na ficção científica e pelos microcontos, leva aos quadrinhos a obsessão por detalhes que parecem marginais. A capital surge menos como ícone modernista e mais como cidade atravessada por uma paisagem resistente e silenciosa. Quem mora ou já passou pelo planalto reconhece na página o cheiro de chuva em terra seca, o vento que não leva nada e o silêncio largo das quadras residenciais.
O autor que pensa o interior em chave moderna
Bráulio Tavares nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e construiu carreira entre a literatura, o jornalismo e a colaboração em revistas de ficção científica. Antes da parceria com Wellington Srbek, já tinha escrito adaptações e roteiros autorais em quadrinhos. Avenida Brasília é o fruto maduro desse encontro entre um escritor de obsessões narrativas e um desenhista com domínio raro de luz e movimento.
A HQ é caprichada nos mínimos detalhes: placas de trânsito tortas, postes com gambiarras elétricas, jardins pedregulhosos do Plano Piloto. Tavares transforma esses elementos em dispositivo narrativo, e o leitor atento percebe como o aparentemente banal é deslocado para o centro da história. É um exercício de paciência que lembra Guimarães Rosa, atualizado para o formato das pranchas.
O cerrado como personagem central
O bioma entra na narrativa como força que molda comportamentos, vocabulário e rotinas. Árvores tortas, campos nativos com capim dourado, contrastes entre solo vermelho e céu intenso aparecem em enquadramentos que dão tempo ao leitor de respirar. Tavares e Srbek investem em pranchas de pouco texto, deixando a paisagem falar — escolha que dialoga com outras leituras do blog sobre ambientes tratados como linguagem narrativa.
A fauna do planalto ganha atenção especial: tucanos cruzando avenidas, seriemas em bando no canteiro central, tatus fugindo de obras. Ela não está ali para enfeitar; participa da coreografia urbana à sua maneira silenciosa. É um cerrado que não cabe em cartões postais e aparece vivo, às vezes incômodo, sempre presente.
A vida cotidiana nas entrelinhas da metrópole
A graphic novel costurou narrativas a partir de fragmentos da vida no planalto. Personagens comuns — uma cobradora de ônibus, um arquiteto recém-aposentado, uma jovem estudante de biologia — desfilam pela Avenida Brasília em capítulos quase autônomos, atravessados por um mesmo ar atmosférico. Cada capítulo funciona como miniconto visual, coisa que combina com a sensibilidade de Tavares pela concisão.
A sensação de cidade cercada por imensidão é constante. Cenas em regiões centrais, como a Esplanada ou a W3 Sul, trazem ao fundo um horizonte longo, como se a malha urbana estivesse suspensa sobre uma vastidão. O Planalto Central acumula construções humanas em meio à savana, e poucos trabalhos exploram o estranhamento com tanta economia de meios.
Memórias afetivas e invenção poética
Tavares não esconde a veia autobiográfica em certos capítulos. O protagonista de uma das histórias é um professor universitário que passa madrugadas anotando sonhos com ipês amarelos. Em outro episódio, a narrativa acompanha uma senhora que coleciona pequenas garrafas de vidro coloridas em uma prateleira de casa — referência discreta ao universo kitsch do Figural Mini Bottles, um tipo de objeto que parece conversar com o autor entre afeto e estranhamento.
A poesia entra pelo pequeno, pelo detalhe. Cores de pores-do-sol exclusivas do cerrado, nomes de cidades satélites, sabores de fruta regional que reaparecem em diálogos aparentemente banais. O leitor sai da leitura com vontade estranha de caminhar por quadras vazias no fim de tarde, reparar em muros descascados e prestar atenção em pássaros de nome incerto.
O traço de Srbek e a arquitetura da página
Wellington Srbek constrói uma Brasília que não é a dos cartões postais modernistas, mas a do concreto gasto pelo tempo, pelas chuvas e pelas décadas de uso. Os traços têm economia de linha notável, com sombras que parecem entendidas em vez de desenhadas. As cores privilegiam o ocre, o amarelo queimado e os verdes secos, em diálogo direto com a paleta do bioma.
A diagramação das páginas segue o ritmo do próprio cerrado: quadros pequenos e densos, painéis que respiram abertos quando a paisagem pede, splash pages reservados para epifanias visuais. A tipografia manual dos balões respeita a fala local, com gírias e regionalismos preservados em caixa baixa quase ilegível, obrigando o leitor a se inclinar sobre a página.
Influências cruzadas com a literatura brasileira
A HQ dialoga sem esforço com a tradição narrativa do interior brasileiro. O domínio do fragmento, o humor contido, a oralidade filtrada pelos diálogos guardam parentesco com o Guimarães Rosa de "Sagarana" e com o modernista que soube ouvir o sertão mineiro. Tavares e Srbek atualizam essa herança para o século XXI, sem nostalgia nem exotismo.
Há ainda sensibilidade comum a autores do fantástico discreto, como Murilo Rubião ou o próprio Bráulio em seus contos. Eventos estranhos — um homem que envelhece em câmera rápida, uma criança que vê o futuro em formações de nuvens — chegam integrados à paisagem, sem alarde. O cerrado aceita o insólito com naturalidade, e a HQ aprende com ele.
Como ler o cerrado depois dessa HQ
Para tirar mais da experiência, vale atravessar Avenida Brasília com leituras paralelas e pequenos rituais de atenção. Hábitos de leitura lenta e observação direta ajudam a entrar no pulso do livro.
- Percorrer os capítulos pela ordem original; a leitura cumulativa revela padrões narrativos.
- Reservar um dia sem pressa, em espaço silencioso e com luz natural de janela.
- Anotar palavras e referências geográficas desconhecidas em um caderno ao lado.
- Ler em paralelo um conto de Guimarães Rosa, especialmente de "Grande Sertão: Veredas".
- Buscar fotos antigas de Brasília de arquivo antes e depois da leitura, observando mudanças.
- Tomar um café forte em uma casa simples com vista ampla, reconhecendo a luz da HQ.
A obra segue disponível em livrarias especializadas, sebos virtuais e feiras de quadrinho nacionais. Quem passou pelo planalto, ama o cerrado ou simplesmente gosta de narrativas que tratam o lugar como linguagem encontra aqui uma das HQs mais originais dos últimos anos. Volte às próprias quadras com olhos recém-treinados e explore a seção de filmes do site, onde outras tantas obras atravessam o olhar brasileiro sobre o território.