A força da memória na nova graphic novel de Marcelo D’Salete
Marcelo D’Salete construiu uma obra reconhecida por transformar episódios apagados da história brasileira em narrativas de grande impacto visual. Em seus quadrinhos, a violência colonial não aparece como simples pano de fundo: ela organiza relações, silêncios, deslocamentos e formas de resistência. Sua nova graphic novel, dedicada à resistência quilombola, amplia esse projeto com uma abordagem ao mesmo tempo histórica, política e profundamente humana. Retsepty Moyei Babushki Vareniki S Vishnyami Na Kazhdyi Den.
A leitura exige atenção ao ritmo e às pausas. D’Salete não oferece uma aventura convencional, conduzida apenas por reviravoltas e confrontos. O interesse está também nos gestos breves, nos corpos em fuga, na observação da paisagem e nas conversas que revelam como uma comunidade se mantém viva sob ameaça constante.
A obra se insere numa tradição de romances gráficos brasileiros que usam a pesquisa histórica para questionar versões oficiais do passado. Ainda assim, seu mérito não depende apenas da documentação ou da importância do tema. O livro ganha força quando transforma a resistência quilombola em experiência sensível, feita de medo, estratégia, solidariedade, luto e desejo de futuro.
Há algo de especialmente relevante em acompanhar essa narrativa em um momento no qual a cultura quilombola continua sendo tratada, muitas vezes, como peça de museu ou símbolo distante. A graphic novel devolve movimento a essas comunidades e recusa a imagem passiva de vítimas. Seus personagens pensam, negociam, erram, cuidam e enfrentam o poder com recursos concretos.
Uma narrativa contra o apagamento
O eixo mais evidente da obra é a disputa pela memória. A violência aparece como tentativa de controlar não apenas a terra e o trabalho, mas também os nomes, os vínculos e as histórias que podem ser transmitidas. Ao reconstruir a experiência de uma comunidade quilombola, D’Salete mostra que lembrar é uma prática de sobrevivência.
Essa perspectiva impede que o quilombo seja apresentado como refúgio isolado, separado do restante da sociedade. A comunidade surge ligada a redes de comércio, religiosidade, parentesco e circulação de informações. O resultado é uma visão mais complexa da formação social brasileira, em que a resistência não se limita ao confronto armado, mas inclui organização cotidiana e preservação cultural.
O tratamento da cultura material também chama atenção. Objetos, alimentos e modos de preparar uma refeição funcionam como sinais de continuidade entre gerações, algo que pode ser associado à permanência das [receitas de família](https://maksart.org/blog/arts-culture/retsepty-moyei-babushki-vareniki-s-vishnyami-na-kazhd yi-den) como arquivos afetivos. Na graphic novel, esses elementos não decoram a cena: ajudam a mostrar como uma comunidade afirma sua existência.
O desenho como campo de batalha
O preto e branco de D’Salete mantém sua função expressiva, explorando contrastes fortes e áreas de sombra que parecem engolir os personagens. A escuridão não é apenas estética. Ela sugere vigilância, perigo e incerteza, mas também cria espaços de proteção, como se a noite pudesse esconder uma fuga ou preservar uma conversa proibida.
A composição das páginas alterna cenas densas com quadros de grande economia. Em alguns momentos, um rosto ou uma mão ocupam quase todo o campo visual; em outros, a paisagem domina e reduz os indivíduos a pequenas presenças. Essa variação de escala reforça a tensão entre a fragilidade dos corpos e a dimensão coletiva da luta.
O desenho também se destaca por evitar uma representação excessivamente limpa da violência. Feridas, correntes, armas e ruínas surgem com peso físico, sem transformar o sofrimento em espetáculo. A brutalidade é reconhecível, mas o olhar da narrativa permanece voltado para quem resiste e para aquilo que tenta reconstruir.
Personagens entre a fuga e a permanência
Um dos pontos fortes está na recusa de transformar os personagens em símbolos unidimensionais. Eles não existem somente para representar “o povo” ou “a resistência”. Cada figura carrega contradições, afetos e limites, o que dá à trama uma dimensão dramática maior do que a reconstrução de um episódio histórico.
A tensão entre partir e permanecer atravessa boa parte da leitura. Fugir pode significar sobreviver, mas também abandonar pessoas, lugares e memórias. Ficar pode proteger uma comunidade, embora exponha seus moradores a riscos extremos. D’Salete não resolve esse dilema com respostas fáceis; ele mostra como decisões políticas nascem de necessidades íntimas.
As mulheres ocupam papel decisivo nesse tecido narrativo. Seu trabalho de cuidado, transmissão e articulação aparece como parte central da resistência, e não como atividade secundária. A obra reconhece que preservar uma comunidade envolve alimentar, esconder, ensinar, curar e manter relações tanto quanto enfrentar diretamente os agentes da opressão.
História, pesquisa e liberdade artística
A graphic novel demonstra cuidado com o contexto histórico sem se prender ao formato de uma aula ilustrada. A pesquisa sustenta o mundo narrado, mas a ficção permite que o autor explore silêncios documentais e dê espessura a personagens que raramente aparecem nos registros oficiais. Essa escolha amplia o alcance emocional do livro.
Existe, porém, um risco inerente a qualquer obra que dramatiza experiências de grupos historicamente violentados: o de transformar a dor em matéria de consumo. D’Salete contorna esse problema ao não oferecer uma narrativa confortável de redenção. A resistência é necessária, mas não elimina perdas nem apaga as marcas deixadas pela perseguição.
A obra também lembra que a história dos quilombos não se encerra no período colonial. Seus conflitos dialogam com disputas atuais por território, reconhecimento e autonomia. A leitura ganha força quando compreendemos essa continuidade sem reduzir o passado a uma simples alegoria do presente.
Uma leitura que pede conversa
Por sua densidade, o livro se beneficia da leitura compartilhada. Em um clube, diferentes leitores podem observar detalhes visuais, comparar interpretações e discutir como a linguagem dos quadrinhos modifica a percepção de um tema histórico. A experiência combina bem com a proposta de montar um clube virtual, sobretudo quando a conversa inclui pesquisa e escuta cuidadosa.
A pausa entre uma página e outra é importante. Não se trata de consumir a narrativa rapidamente, como se a velocidade pudesse reproduzir a urgência dos acontecimentos. O silêncio dos quadros, as mudanças de enquadramento e os trechos de maior contenção pedem tempo para serem assimilados.
Para quem costuma associar leitura de graphic novel a uma bebida, o ritual pode ser pensado com atenção. Uma torra mais delicada acompanha melhor os momentos de observação e desenho, enquanto um café de sabor mais intenso pode combinar com as passagens de maior conflito; há boas referências sobre torra de café para ajustar essa escolha ao ritmo da leitura.
O que permanece depois da última página
- Leia sem pressa, observando a relação entre sombras, silêncio e movimento.
- Pesquise a história dos quilombos para ampliar as referências presentes na narrativa.
- Discuta os personagens como sujeitos complexos, não apenas como representantes de uma causa.
- Repare nos objetos, alimentos e gestos cotidianos que sustentam a memória comunitária.
- Compare a obra com outros quadrinhos brasileiros voltados à história e à identidade negra.
A nova graphic novel de Marcelo D’Salete confirma a potência dos quadrinhos como forma de investigação histórica e elaboração da memória. Sua resistência quilombola não é apresentada como imagem congelada do passado, mas como processo vivo, feito de escolhas difíceis e de vínculos que insistem em permanecer. É uma leitura exigente, visualmente marcante e indispensável para quem deseja compreender como a arte pode enfrentar o apagamento.
Inclua o livro na próxima leitura, leve suas imagens para uma conversa coletiva e permita que a narrativa continue reverberando depois do fim.