O Cidadão Iluestre – El Ciudadano Ilustre [Filme]

Por K.Pigari
O cinema argentino, que já marcou presença no Oscar com indicações de melhor filme estrangeiro diversas vezes [Relatos Selvagens, O Médico Alemão, O Segredo dos Seus Olhos, e muitos outros], produziu em 2016 O Cidadão Ilustre.

O filme conta a história de Daniel Mantovani [Oscar Martínez], escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Após sair de sua cidade natal [Salas, pequeno povoado a aproximadamente 800 quilômetros de Buenos Aires] aos 20 anos [e nunca mais voltar], ele se muda para a Europa, onde vive os próximos 40 anos.

Certo dia ele aceita o convite do prefeito de Salas para receber o título de Cidadão Ilustre. O escritor decide, então, cancelar inúmeros compromissos e voltar ao povoado onde nasceu e onde moram os personagens que inspiraram a maioria de seus livros. [Atitude que toma não somente pelo afeto, mas também por vaidade].

Acontece que Daniel é um escritor melancólico que não gosta de dar entrevistas, palestras ou ser fotografado. Ao receber o Nobel de Literatura seu discurso se manifesta contra o mecanismo das premiações e, segundo ele, isso demonstra a conformidade da arte com os preceitos de determinados grupos, principalmente os intelectuais.

Ao voltar para Salas, ele é recebido com um filho, o orgulho da cidade. O autor reencontra Antonio [Dady Brieva], seu amigo de escola, que agora está casado com Irene [Andrea Frigerio], antiga namorada de Daniel. O reencontro é ácido e carregado de uma atmosfera hostil, que tenta ser mascarada com humor e falsa nostalgia.

Durante o tempo que passa em Salas, o romancista percebe que as coisas continuam exatamente iguais ao que eram no passado. Ele nota na comunidade situações que o incomodam, como por exemplo, a contradição entre inocência e ingenuidade, a falsa moralidade, as aparências que se mantém estabelecidas e, as relações que se baseiam em “troca de favores” e chantagens.

Daniel, então, começa a se opor a todo tipo de hipocrisia que o perturba e, gradativamente, o escritor passa a ser odiado pelos moradores da cidadezinha, até ser obrigado a ir embora.

Em O Cidadão Ilustre, o protagonista consegue, ao mesmo tempo, desempenhar uma figura digna de admiração e pela qual podemos chegar a nos apiedar em alguns momentos. Em contrapartida, a repulsa pelo mesmo personagem também se faz presente, em virtude de atitudes moralmente reprováveis, como a vaidade e ar de superioridade em relação à cidade e seus moradores.

O longa, que é carregado pelo cinismo, conta com um humor melancólico que se manifesta por conta da cotidianidade do povoado e de figuras estranhas que vão em busca de Daniel.

A presença do escritor incomoda [ou seja, cumpre a função artística, de acordo com a manifestação do autor]. O Cidadão Ilustre evidencia, sobretudo, a impossibilidade de convivência entre Daniel e Salas.

O Cidadão Ilustre, filme argentino com direção de Gastón Duprat e Mariano Cohn, estreou nessa quinta-feira, 11 de maio.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

Por Katia Soze

Baseado na animação de 1995, chamada por aqui de “O Fantasma do Futuro”, o filme se passa no ano de 2029 e conta a história de Major (Scarlett Johansson), a primeira ciborgue aperfeiçoada com cérebro humano que foi criada para combater crimes cibernéticos e perigosos vilões. A trama é adaptada de um mangá de 1989 e foi inspirada por obras clássicas como “Blade Runner” (1982), além de ter inspirado outras, como “Matrix” (1999).

A produção sofreu alguns protestos pelas redes sociais pela escalação de uma estrela americana para o papel principal, que na animação original é de uma japonesa. No entanto, é compreensível a escolha de Scarlet Johansson, considerando que o filme é uma adaptação de Hollywood e a intenção era fazer um blockbuster que pudesse atrair o máximo de pessoas ao redor do mundo. E, convém dizer, que sua interpretação no papel principal está excelente, assim como todo o elenco de apoio.

Visual de primeira

Dirigido por Rupert Sanders (de “Branca de Neve e o Caçador”), “A Vigilante do Amanhã” se diferencia bastante da proposta da animação original. Enquanto o primeiro filme era muito mais complexo e deixava várias questões filosóficas em aberto para que o espectador pudesse refletir, essa nova versão foca muito mais no passado de Major e no seu dilema interior para descobrir qual o seu propósito no mundo. Será que ser explorada como uma arma pelo governo é maneira mais correta de usar suas habilidades?

Sendo assim, apesar de um roteiro um tanto previsível, que vai parecer genérico para algumas pessoas, o filme compensa com o carisma dos personagens e principalmente pelo visual impressionante, que cria um universo futurista cheio de tecnologia. Com boas sequências de ação, o longa explora um tema muito relevante para a nossa sociedade atual, que é o roubo de informações sigilosas por meio de hackers e terroristas cibernéticos. É assim que o vilão Kuze (Michael Pitt) tenta seduzir Major para se voltar contra seus criadores.

Concluindo, considerando sua proposta de ser um blockbuster divertido e abrangente para as massas, “A Vigilante do Amanhã” cumpre o que promete e se for bem de bilheteria pode indicar o começo de uma nova franquia para a Paramount nos cinemas.

Certamente algumas pessoas vão esperar um pouco mais de profundidade e reflexão como a obra original, mas repito, esse nunca foi o objetivo deste live action, precisamos entender os filmes pela proposta que eles querem passar. Uma boa opção para quem procura uma trama de sci-fi repleta de ação, com um visual incrível.

Chiron e a busca pela identidade [Moonlight – Sob a luz do Luar]

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Estreia hoje nos cinemas Moonlight, o mais novo filme de Barry Jenkins. O diretor cria uma atmosfera cheia de lirismo para mostrar uma questão forte dos dias de hoje, que é a busca pela identidade.

A todo momento nosso protagonista, tenta se encontrar dentro de uma sociedade violenta e buscar respostas para se definir. Para representar essa mudança o diretor resolve recortar o filme em três atos.

Tudo começa com Little [Alex Hibbert] que o destino leva a um encontro com Juan [Mahershala Ali, que merece o Oscar por sua atuação] e sua esposa. Juan é um proeminente traficante da região, que se vê obrigado a cuidar do garoto que está perdido em uma região cheia de traficantes, e isso faz mal para os negócios, como ele mesmo diz.

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Mesmo Juan sendo um personagem negativo, ele mostra uma ética forte, e adota o garoto como seu, e por vezes dá lições de moral na mãe de Little, uma das usuárias de crack da sua região.

Esse primeiro recorte mostra pouco sobre a vida de Little, mas é importante para entender o seu contexto.

Na segunda parte Little se torna um adolescente e não usa mais esse apelido, agora ele usa seu nome verdadeiro: Chiron [Ashton Sanders]. Com essa nova metamorfose, vemos um garoto mais frágil em uma vida de colegial, onde todas as incertezas do mundo pairam sobre a gente. Só que desta vez Chiron não tem mais a ajuda de Juan, ele faleceu, mas o jovem ainda busca repouso na casa do velho mentor, onde sua mulher ainda vive e o trata como um filho.

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Descobertas

É nessa fase que Chiron busca as respostas sobre a sua sexualidade. Ele encontra refúgio nos braços de seu amigo Kevin. Mas o destino começa a agir e a figura de Chiron é deixada para trás.

Violência

Violência

Nesse momento entramos no último recorte do filme e temos Black [Trevante Rhodes], uma cópia quase que fiel de Juan. Aquele garoto franzino e fraco que se chamava Chiron não existe mais. Black segue a mesma trilha de Juan. Porém o passado vem a tona Black se reencontra com Kevin e então temos a pergunta derradeira: Quem é Você?

Lirismo nas três vidas de Chiron

Lirismo nas três vidas de Chiron

Barry Jenkins não abusa de tomadas longas ou excesso de sentimentalismo para mostrar a busca. Ele usa o ambiente agressivo e forte da vida do gueto para desmistificar os personagens que vivem nesse meio. A busca de Chiron pela sua identidade sexual é vista como uma fraqueza entre seus iguais.

Essa ousadia de Jenkins que faz o filme se tornar genial e bonito ao mesmo tempo, infelizmente Moonlight tem poucas chances de vencer o Oscar, mas é um filme que merece ser visto.

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Voltamos na Segunda!

Ninguém pode parar Keanu Reeves [John Wick: Um novo dia para Matar]

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Entra em cartaz nesta quinta o segundo filme da franquia John Wick [Agora com o Subtítulo de Um novo dia para Matar], essa continuação se aprofunda muita mais sobre a organização criminosa que o John Wick faz parte, além de caprichar ainda mais nas cenas de luta.

Chad Stahelski, volta a cadeira de diretor, para tentar repetir o sucesso do primeiro filme. Stahelski é um personagem famoso em Hollywood, sempre trabalhou como dublê e que agora tenta a carreira como diretor, John Wick é só seu segundo filme, mas é a nona vez que ele trabalha com Keanu Reeves, foi ele quem apoiou Stahelski a se aventurar no caminho da direção.

Lutas bem coreografadas

Lutas bem coreografadas

Nada mais justo do que o diretor criar um personagem que fosse sob medida para Reeves. Sim, não consigo imaginar John Wick na pele de outro ator, o “Bicho Papão[apelido do assassino] apresenta uma aura tranquila, mas ao mesmo tempo uma fúria implacável. Estilo esse que Reeves já mostrou em outros filmes, Wick tem um pouco de samurai [Um Ronin para ser exato].

Neste novo filme, John Wick se encontra encurralado por Santino [Riccardo Scamarcio] um poderoso homem da máfia, que obriga [baseado em um pacto de cavalheiros] a entrar em uma última missão. Santino é um homem que precisa tomar o poder das mãos da sua irmã e nada mais justo do que contratar alguém para executar o serviço. Mas Santino não é um homem de palavra e coloca a cabeça do assassino a prêmio.

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Um dos grandes acertos do filme, foi se aprofundar na sociedade dos ladrões. Conhecer mais sobre suas regras e como ela funciona, da ainda sustentação para o universo dos personagens, arriscar na Glamourização dos criminosos também. Isso vai das roupas, modo de agir e o simples de fato de que existe uma honra entre eles.

Por hora esquecemos que eles são ladrões e assassinos e os imaginamos como espiões saído do um filme de James Bond.

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No quesito ação o filme não peca pelo excesso, diferente de outros filmes da mesma geração como [Velozes e Furiosos, XXX ou qualquer um do Liam Neeson] ele preza pela “realidade” as ações são bem apegadas a realidade, talvez o único momento que o filme fuja dessa “realidade” é a cena do tiroteio no metro, mas que também pode servir de crítica a sociedade, onde estamos sempre olhando para frente e esquecendo o que tem em volta.

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Outro bom acerto do diretor é a cena final, ele trouxe um elemento muito importante, que a teatralidade da sala de espelhos. E que serve de homenagem ao grande mestre Bruce Lee.

John Wick: Whoever comes, I’ll kill them. I’ll kill them all.

Winston: Of course you will.

O diretor encerra o filme com algumas possibilidades, seria legal ver John Wick novamente, mas superar esta sequência é quase impossível. Então vá ao cinema e veja John Wick: Um novo dia para matar.

Voltamos na Segunda!

Se você gostou da performance musical, procure Ciscandra Nostalghia!

O Chamado 3

Por Katia Soze

Quando o primeiro ‘O Chamado’ – remake norte-americano do filme japonês ‘Ringu’, de 1998 – surgiu em 2002, dirigido por Gore Verbinski (de ‘Piratas do Caribe’), seu misto de suspense com terror sobrenatural conquistou não apenas os fãs do gênero, mas também a crítica especializada.

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Com uma história repleta de mistério – onde quem assistisse a uma fita de vídeo morreria em sete dias – o filme trouxe um frescor de originalidade ao desgastado gênero do terror, aliado a um visual sombrio, sustos genuínos e surpreendentes atuações (destaque para Naomi Watts e o garotinho David Dorfman), ‘O Chamado’ ainda conseguiu estabelecer um dos primeiros ícones de filmes de terror do século XXI: a assustadora garotinha Samara. Obviamente, todo esse sucesso seria mais que suficiente para que houvesse uma continuação, certo?

Entretanto, mesmo contando com a direção do criador do filme original (o japonês Hideo Nakata), a sequência – realizada em 2005 – pecou muito por ser bem mais previsível e confusa na tentativa de se aprofundar nas origens da vilã. Sendo assim, a franquia foi abandonada por muito tempo até que 12 anos depois, chega aos cinemas brasileiros o novo capítulo dessa história: ‘O Chamado 3’. O filme conta nomes desconhecidos do público tanto na direção (o espanhol F. Javier Gutiérrez) quanto no elenco.

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Na história, Júlia (Matilda Lutz) se preocupa quando seu namorado Holt (Alex Roe) vai para a faculdade em outra cidade e desaparece misteriosamente. A investigação a leva até o professor Gabriel (Johnny Galecki, o Leonard da série ‘The Big Bang Theory’), um homem misterioso obcecado pela alma humana e por estudar a mitologia por trás de Samara. Na tentativa de salvarem suas vidas e colocarem de vez um final nessas mortes, eles se unem para descobrir onde tudo começou. E o filme, realmente assusta?

Infelizmente, ‘O Chamado 3’ está muito mais para a previsibilidade do seu antecessor do que para o suspense e terror do primeiro filme. O roteiro é repleto de clichês que nos fazem antecipar praticamente tudo o que irá acontecer na cena seguinte, e nem os famigerados ‘jumpscares’ funcionam – ao contrário do que acontece em filmes como ‘Annabelle’, ‘Atividade Paranormal’ ou ‘Ouija’, por exemplo.

Certamente é muito estranho quando em um filme de terror, o espectador dá mais risadas do que sustos, mas é o que realmente acontece. Os personagens tomam sempre decisões absurdas e o filme nem se esforça em criar momentos de tensão para deixar o público apreensivo e com medo – tanto pela trilha sonora mal utilizada quanto pela catastrófica direção de Gutiérrez.

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Na tentativa de tocar em temas como religião ou na relação entre os personagens, tudo é abordado da forma mais simplória possível. Em certos momentos, era difícil perceber se estava vendo ‘O Chamado’ ou a versão satírica ‘Inatividade Paranormal’. Por mais clichê que seja essa frase, é uma pena que Samara e sua franquia tenham alcançado literalmente ‘o fundo do poço’.