Revisitando a infância [A Borra do Café]

Nada é mentira. Basta um pouco de fé, e tudo é real.

Louis Jouvet

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De todos os escritores que passaram por minhas mãos, Mario Benedetti foi o que mais me tocou e o que mais me ajudou. O meu primeiro livro foi, A Trégua [clique aqui e leia], sua escrita leve e a forma com que narrou o amor quase impossível de um homem mais velho e sua jovem colega de trabalho me cativou.

Novamente o acaso me colocou a frente de Benedetti, só que agora com um livro quase biográfico. Para “A Borra do Café”, O escritor se torna o jovem Cláudio. E a cada capítulo somos levados a ver um pouco das passagens da sua vida, indo dos fatos marcantes, até os mais banais, mostrando que mesmo os fatos simples moldaram a vida de Claudio [Mario Benedetti].

Entre os capítulos vemos as constantes mudanças de casa, fruto da profissão do pai e da inconstância da mãe. As verdadeiras amizades [amigos de infância], o primeiro amor platônico [a professora de pernas grossas], o primeiro amor [pela garota misteriosa da janela], a face com a morte [o encontro com o defunto no parque], a primeira relação sexual [com a fogosa inquilina da família]Mas a passagem mais marcante se dá próximo ao  fim do livro.

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Nesta passagem temos um Cláudio mais maduro, preocupado com seu mundo e as pessoas que o cercam, as brincadeiras de crianças e os amigos do passado já não existem mais, sinais do amadurecimento. Na passagem ele reflete sobre a segunda bomba atômica lançada no Japão, por vezes um fato esquecido.

Já que o Japão estava em processo de rendição, não seria necessário o lançamento da segunda bomba nuclear [três dias depois da primeira].

“Marina e eu só ficamos sabendo no dia seguinte. Não sei por quê, a bomba de Nagasaki em afetou mais do que a de Hiroshima. Talvez porque representou não só o horror, mas também a continuação dele.”

“Quando escutava os comentaristas de rádio, ou lia os jornalistas, que exaltavam aqueles massacres, porque haviam evitado milhões de outras mortes, parecia-me que uma nova doutrina, a hipocrisia técnico-científica, acabava de nascer.”

Se gosta de uma boa leitura, A borra de café é o seu livro.

Malditovivant, volta na quarta com novidades.