Edgar Alla Poe a pena do medo [O Fim da Semana do Terror]

O Corvo diz nunca mais.

Poe nasceu em 1809, viveu apenas 40 anos, mas nesse tempo de vida criou os mais intrigantes contos Góticos já escritos até hoje. Poe trabalhou como editor de alguns jornais da época, mas essa não era sua real paixão, apenas um meio de viver.

Ele havia se casado com a prima de 13 anos de idade e fugido foi para N.Y, onde viveu um tempo de bloqueio com a escrita, percebendo esse problema se muda para Filadélfia onde volta a escrever e consegue um alto posto na revista Burton’s Gentleman’s Magazine.


Anos depois sua esposa, viria a falecer de tuberculose. A perda de seu amor o levou a loucura se entregando a bebida e aos vícios da época. Assim sozinho se muda novamente para N.Y onde trabalhando em outro jornal publica seu mais famoso Poema: The Raven.

Quatro anos após publicar The Raven, Edgar Allan Poe vem a morrer, de causas desconhecidas. Poe foi encontrado perambulando pela rua em estado de plena insanidade.

Anos mais tardes foram levantadas hipóteses de que Poe era praticante de Magia Negra, e que o fruto de seu sucesso era um pacto feito com o Demônio e o preço pago seria a alma de sua jovem esposa. Hipóteses mais plausíveis eram de que o escritor tinha transtornos por conta da bebida.

Nunca ao certo saberemos qual foi o real motivo de sua morte, mas podemos apreciar o seu legado, com mais de 40 obras publicadas, entre poemas e contos.

Para finalizar o Post presenteio vcs com o Poema: The Raven, traduzido por Fernando Pessoa.


O Corvo

    Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
    Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
    E já quase adormecia, ouvi o que parecia
    O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
    “Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

    É só isto, e nada mais.
    Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
    E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
    Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
    P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
    Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
    Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
    “É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
    Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isto, e nada mais”.
    E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante, “Senhor”, eu disse, “ou senhora, decerto me desculpais;
    Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
    Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
    Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
     

    Noite, noite e nada mais.

    A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
    Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
    Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
    E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
    Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
     

    Isso só e nada mais.
    Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
    Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
    “Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
    Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.”
    Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
     

    “É o vento, e nada mais.”
    Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
    Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
    Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
    Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
    Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
     

    Foi, pousou, e nada mais.
    E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
    Com o solene decoro de seus ares rituais.
    “Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
    Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
    Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
    Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
    Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
    Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
    Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
     

    Com o nome “Nunca mais”.
    Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
    Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
    Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
    Perdido, murmurei lento, “Amigo, sonhos – mortais
    Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
    “Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
    Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
    Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
    E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
     

    Era este “Nunca mais”.
    Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
    Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
    E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
    Que qu’ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
    Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
     

    Com aquele “Nunca mais”.
    Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
    À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
    Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
    No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
    Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
     

    Reclinar-se-á nunca mais!
    Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
    Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
    “Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
    O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
    O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    “Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
    Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
    A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
    A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
    Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    “Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
    Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
    Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
    Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
    Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    “Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
    Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
    Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
    Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
    Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
     

    Disse o corvo, “Nunca mais”.
    E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
    No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
    Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
    E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
     

    Libertar-se-á… nunca mais!
Anúncios

4 comentários em “Edgar Alla Poe a pena do medo [O Fim da Semana do Terror]

  1. debondan disse:

    O Corvo, de Poe…acabamos de ler e estudar no meu grupo de leitura.
    Obrigada pelo Pessoa…,ele é sempre bem vindo.
    Esta frase me dá calafrios…mas adoro:
    “Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,”…demaiiiisssssss!!!
    Nunca pensara nisto…um demônio que sonha …imagine?! Ele foi perfeito!

    bjo

  2. Os demonios se sonham nao sei, ma spovoam nossos sonhos,
    quais sao nosso demonios?
    que nos atormentam?
    Que nos afastam da paz?
    beijos
    J^^h

  3. debondan disse:

    ferds, agora com mais calma…queria dizer que a tradução do pessoa é bárbara, mas existem tb a de Machado de Assis e , mais recentemente ( 1943) a de Milton Amado.

    Vê só que diferença de traduções para:
    ONCE UPON A MIDNIGHT DREARY, WHILE I PONDERED, WEAK AND WEARY…

    Machado ,em 1883 traduziu assim:
    ” Da meia-noite que apavora…Eu caindo de sono e exausto de fadiga…”

    Fernando Pessoa ,em 1924 – ” Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste…”

    Milton Amado , em 1943- ” Foi uma vez:eu refletia, á meia-noite erma e sombria, ”

    Vê qta diferença? E todas belas.

    Qual delas Edgar Allan Poe gostaria mais?

    bjo e parabéns pela postagem

  4. debondan disse:

    Minha humilde contribuição para teu blog neste mês de Bruxas…
    OLha o que achei :

    Um barato…escuta embaixo das cobertas, no escuro , numa noite tenebrosa de temporal rs

    bjo

Comente [Vamos dividir um Drink!]

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s